quinta-feira, 1 de julho de 2010

Amigo

Amigo é aquela pessoa que,
embora não esteja ao seu lado
em todos os momentos,
sempre está lembrando de você.

Amigo é aquele que tem prazer
em sua companhia.
Aquele que, embora esteja acompanhado
de outras pessoas,
se alegra com a sua presença.

Amigo é aquele que não tem receio
de procurar sua companhia.

Amigo é aquele que tem afeição
por muitos,
e uma especial por você.


Décio Diniz (agosto de 2003)

terça-feira, 22 de junho de 2010

Pedaços de mim


Ainda guardo comigo
Lembranças dum tempo que se foi
Carrego comigo
Imagens gravadas
Dentro da minha mente
E do meu coração
São minhas, para sempre

Por toda a minha vida
Revivo-as
Eternamente
São pedaços de mim
Tesouros que guardei
Embrulhados na minha memória
Selados com minha saudade

Décio Diniz

Lágrimas de sangue

Meu coração ainda sangra
Passam os dias, os meses, os anos
Ainda acordo num sobressalto
No meio da noite
Lembrando o momento da partida
Querendo ficar
Estou sozinho neste sentimento
Afogando-me em meu desespero
Ainda sangra meu coração
Insiste em não cicatrizar
Minhas lágrimas secaram
Mas meu coração ainda chora
Lágrimas de sangue


Décio Diniz (março de 2006)

Seis anos

Seis anos
Que às vezes parecem seis meses
Outras, seis décadas
Tamanha a quantidade de
Sentimentos
Sensações

O que são seis anos?
Mais de setenta meses
De dois mil dias
Quase duzentos milhões de segundos

Segundos desperdiçados
Segundos bem aproveitados
Segundos que devem ser somados
Ou diminuídos?

Centenas de milhões de segundos
De vida
Milhares de segundos de erros
Milhares de acertos
Outros milhares de dúvida
E outros de certeza

Podem apenas seis anos
Conter milhares de momentos vividos?
Podem conter uma vida?
Quantas vidas podem conter?

Quantos milhares de segundo
Levaremos para ter as respostas?
Não sabemos
Mas a cada gota de segundo
Deste oceano de tempo
É preciso renascer
De modo que apenas poucos anos
Podem conter milhões de vidas!

Décio Diniz (março de 2008)

De volta a lugar nenhum

Sempre fui fascinado pela idéia de voltar ao passado. Não acreditava em máquinas do tempo, ou coisas assim. Mas, tinha certeza de que havia alguma maneira de transpor a barreira do tempo. Talvez não para o futuro, que ainda não aconteceu, mas certamente para o passado.

Certa vez, assisti a um filme onde o protagonista conseguiu voltar ao passado por livrar-se de qualquer coisa que estivesse ligada ao presente, ao passo que se concentrava num ambiente caracterizado pelo passado. De algum modo talvez isso fizesse sentido. Por várias vezes tive a nítida sensação de que um cheiro ou uma música, mesmo que por alguns segundos, me transportava ao passado. Era isso o que eu precisava fazer. Reconstituir exatamente a cena de algum tempo atrás. Tinha de dar certo.

Entrei no carro, liguei o som e coloquei a música. A mesma que ouvi anos atrás. Fui direto para o lugar em que achava ter sido o ponto de partida para tudo o que havia acontecido desde então – aquela curva. Pouco antes do trevo, aumentei o volume do som e acelerei o carro. Tinha de fazer exatamente como daquela vez, fazendo a curva de repente. Os pneus cantaram e o carro girou, entrando no trevo e atravessando a outra pista.

Ao entrar pela rua principal, senti um frio pelo corpo e o coração bater forte. O que havia acontecido? Uma forte neblina envolvia tudo lá fora, e a vista pela janela do carro parecia desenhada a carvão. Era como se eu estivesse assistindo a um filme em preto-e-branco. Encostei o carro e desci. O ar gelado endurecia minha pele e um arrepio correu por todo o meu corpo. Não se via uma pessoa na rua, nenhuma luz nas casas. Nenhum barulho, nenhum ruído. Apenas o dos meus passos lentos. Me senti como um vivo caminhando pelo mundo dos mortos. Ou seria aquilo o futuro? Parecia mais um tempo perdido. Nem passado, nem futuro, embora também não fosse o presente. Subitamente, tive a impressão de que estava perdendo os sentidos. Fechei os olhos e tentei respirar com dificuldade. Ao abri-los novamente, estava em meu quarto, a escuridão quebrada apenas pela luz vermelha do visor do relógio, marcando três e meia da madrugada.

Tudo então não havia passado dum sonho? A sensação era tão real que não conseguia acreditar nisso. Meus pensamentos estavam confusos, embaralhados. A única coisa que vinha de forma bem clara à mente eram as palavras que ouvi certa vez: “Nunca volte a um lugar em que você foi feliz.”

Décio Diniz (abril de 2006)

segunda-feira, 21 de junho de 2010

O tempo

O tempo é nosso amigo
Cicatriza nossas feridas
Aumenta-nos a sabedoria
Enche nossa vida
Leva embora momentos ruins

O tempo é nosso inimigo
Faz cada vez mais distantes
Bons momentos
Amigos que partiram
Pessoas que se foram

O tempo é inflexível
Avança em uma única direção
Não cede
Não volta

O tempo nos esmaga
E nos engrandece
Nos faz ser
humanos


Décio Diniz (setembro de 2005)

Estupidez

Ele caminhava pelos escombros. Cheiro de morte no ar. Paisagem de fim de mundo. Apenas o vento frio, que levantava uma nuvem de pó, ressoava em seus ouvidos, como uma melodia fúnebre. Andava com dificuldade. A cada passo a perna falhava, a dor lancinante lhe coibindo o ritmo. O corpo todo ardendo em feridas.

Seus olhos foram se acostumando com a escuridão. Aos poucos começou a distinguir os corpos espalhados pelo caminho. A força que lhe restava foi-se esvaindo. Encostou num pedaço de muro que resistira às explosões. O corpo foi escorregando até o chão. Fechou os olhos. Viu o sorriso da esposa amada e o filho correndo para seus braços. Derramou algumas lágrimas, que molharam o rosto imundo.

... Agora tudo era sem vida. Até mesmo o vento não soprava mais. Aos poucos o dia amanheceu, revelando o horror do cenário. O caos. A morte. A guerra. A estupidez.

Décio Diniz

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

De volta ao Sítio - Capítulo 6


Juca

- Pois bem, senhor Escritor de cartas, temos que arrumar algumas coisinhas no que diz respeito a sua pessoa.
- O que você vai aprontar, Emília?
- Vou consertar meu visitante para que ele fique no ponto para entrar para nossa turma. Não é isso que ele quer?
- Consertar, Emília? Que estória é essa? E desde quando ele é seu visitante?
- Meu visitante porque eu vou deixá-lo no ponto para que esta visita dê certo. E vou consertar, sim. Com uma mexidinha aqui, outra acertadinha ali, este sítio vai ser visitadíssimo por ele.
- E o que você quer consertar em mim, Emília?
- Precisamos começar pelo seu nome.
- O que tem de errado nele?
- De errado nada. Mas precisamos de um apelido para você. Ninguém chama o Pedrinho de Pedro ou a Narizinho de Lúcia.
Emília fez cara de quem procurava um apelido em sua cabecinha. Olhou para "seu" visitante, franziu a testa, bateu o pé.
- Acho que dona Emília não está muito inspirada hoje - comentou o Visconde, com ares de deboche.
- Juca!
- Juca?
- Juca. Ju-ca. Juu-Caa. Ele tem cara de Juca.
- Por que Juca, Emília?
- Olhe bem, Pedrinho. Ele não te lembra alguém?
- Essas sobrancelhas...
- Isso mesmo! Ele é a cara do Monteiro Lobato. E o apelido dele quando criança era Juca.
Ficou assim resolvido. O "visitante da Emília" de agora em diante era Juca.
- Agora só falta uma coisa. Fechem os olhos todos.
Quando todos obedeceram, Emília cochichou ao ouvido de Juca: "Faz-de-conta que você ainda é criança!"
- Prontíssimo! Podem abrir os olhos.
Todos ficaram surpresos com a idéia da Emília. Juca era agora um garoto, assim, da idade do Pedrinho.
- Viva! Viva o Juca criança!
Juca olhava para si mesmo, numa mistura de susto com alegria.
- O que dona Benta vai dizer disso? - perguntou o Visconde.
- Vai dizer o que sempre diz: "Meu Deus, e eu que pensei que já tinha visto de tudo neste sítio!" E depois vai se derreter de amor ao perceber que ganhou um novo neto. Mas isso fica pra depois. Agora vamos continuar mostrando o sítio para o Juca.
Emília agarrou a mão de Juca e saiu correndo para o pomar.
- Vamos, Juca! Vou te mostrar o ribeirão.
Narizinho e Pedrinho correram atrás.
- Essa Emília não muda nunca. Se apoderou do anjinho, do Quindim, e agora do nosso novo amigo.
- Pode deixar, Narizinho. Vou ensinar o Juca a como lidar com essa bonequinha que se acha a dona do mundo.
E o Visconde correndo atrás deles:
- Ei! Esperem por mim...

FIM

Autor: Décio Diniz

De volta ao Sítio - Capítulo 5

A chegada

Tia Nastácia sempre era a primeira a se levantar. O ar fresco da manhã, antes do sol começar a aquecer o dia, lhe era muito reconfortante. Saía para o quintal e sentia o frescor das folhas molhadas pelo orvalho. Depois, na cozinha, começava a encher a casa com aquele aroma delicioso de café.
- Bom dia, tia Nastácia!
- Bom dia, Emília! De pé, já tão cedo? O que a bonequinha vai aprontá hoje?
- Ora! Hoje vamos receber o visitante misterioso de dona Benta.
- Hoje? Mas a sinhá nem respondeu a carta ainda.
- Eu respondi. Detesto esta estória de ter que esperar. Faz-de-conta que o ilustríssimo senhor Visitante recebeu minha resposta e já está de malas prontas. Daqui a pouco, depois do café, estaremos todos na porteira para recebê-lo.
Tia Nastácia às vezes ainda parecia se surpreender com as idéias da Emília. "Ninguém pode mesmo com essa bonequinha", pensou, enquanto tirava os pãezinhos do forno.

Como dizia Narizinho, naquela manhã Emília estava "com a corda toda". Tirou todos da cama, um por um, apressou tia Nastácia para servir o café e logo estavam todos na porteira, liderados pela bonequinha.
- Você tem certeza que ele chega hoje, Emília?
- Claro, Pedrinho! Confie em mim.
- Por que esse seu interesse tão grande nessa visita, Emília? Depois que eu li a carta, você tomou conta da situação, como se fosse uma de suas reinações.
- Pois não foi ele mesmo quem pediu minha ajuda?
Dona Benta balançou a cabeça, concordando.
Emília olhava para a estrada, apertando seus olhinhos de retrós.
- Vejam! Ele está chegando. Não tem cara de vovô não. Deve ter uns quarenta anos.
O "convidado" de dona Benta trazia uma mochila nas costas, e ao avistá-los na porteira acenou, com um sorriso no rosto.
- Ele está com aquela cara de quem acabou de encontrar algo que procurava há muito tempo - cochichou Emília no ouvido de Pedrinho.
- Tenha modos, Emília!
Dona Benta adiantou-se, cumprimentando o homem que chegava na porteira:
- Bom dia! Seja bem-vindo. Creio que o senhor é quem me escreveu de São Paulo.
- Bom dia, dona Benta! Sou eu mesmo. Mas, por favor, não me chame de senhor. Sempre quis ser seu neto.
- Acho que o senhor não tem idade para ser neto da dona Benta, não.
- Emília!
- Não se preocupe, dona Benta, Emília tem razão. Às vezes penso que ainda tenho a idade do Pedrinho! Sempre quis participar das aventuras com vocês, mas acho que cheguei tarde.
- Também não é assim - lembrou Pedrinho. Tia Nastácia já foi com a gente para a lua, a vovó para a Grécia.
- Isso mesmo, senhor Adulto. Tudo depende de você passar pelo nosso teste.
- Teste? Como assim, Emília?
- O teste da imaginação. E acontece que você já passou. A resposta que lhe mandei foi pelo faz-de-conta, e você fez tudo dinheitinho como lhe falei.
- Quanto à imaginação, sou igual ao Pedrinho e Peter Pan. Parei de crescer.
- Ótimo! E tenho uma idéia que vai deixá-lo ainda melhor.
Emília pegou a mão do visitante e saiu correndo para o quintal, seguida por Narizinho, Pedrinho e Visconde.

(Continua...)

terça-feira, 27 de outubro de 2009

De volta ao Sítio - Capítulo 4

Estrelas

Aquela noite Narizinho foi para a cama com os olhos pesados de sono. Deitou-se e logo dormiu. E sonhou. Sonhou com o céu pontilhado de estrelas. Mas era o céu mais bonito que já tinha visto. As estrelas voavam de um lado para o outro e algumas pareciam descer quase que até a ponta de seu nariz. "Que maravilha! Parece até que estou viajando pelo céu novamente."
- Não é lindo, Narizinho?
- Emília! Você também está aqui?
- Que estória é essa, Narizinho? Sempre dormi aqui com você. Parece que está sonhando.
Narizinho percebeu que não era sonho. Estava em seu quarto, junto com Emília. E as estrelas eram...
- Não são lindos meus vaga-lumes?
- Parecem estrelas passeando pelo céu!
- O Visconde me convenceu que não seria correto prender os vaga-lumes dentro da garrafa só para fazer um abajur. Então combinei com eles que iluminassem nosso quarto esta noite e amanhã estão dispensados.
- Ficou lindo, Emília! Acho que vou dormir e sonhar que estamos passeando pelo universo outra vez. Boa noite.
- Boa noite, Narizinho.

Emília, na verdade, não dormia. Fingia dormir. Passava as noites raciocinando com sua cabecinha de macela, filosofando sobre a vida, planejando novas aventuras. Naquela noite, como não poderia deixar de ser, ela pensava na carta que dona Benta havia recebido.

"Que estória será essa de um menino que passou sua infância aqui no sítio? Quantos anos será que ele tem hoje? Será um simpático vovô como a dona Benta? E se Pedrinho estiver certo? Se for alguém querendo fazer um filme sobre o sítio? E se for um diretor famoso de Hollywood, desesperado para me contratar? Já estou vendo o cartaz do filme: A marquesa de Rabicó, estrelando... Emília! Mas 'Rabicó' é um nome nada artístico. Ficaria melhor A marquesa do Picapau Amarelo. Melhor ainda, A princesa do Picapau Amarelo. Mas não dá. A princesa daqui é a Narizinho. Foi ela quem se casou com um príncipe. Sempre falei que eu deveria ter me casado com um príncipe, ou um rei!"

A euforia de Emília foi por aí a fora até os primeiros raios de sol entrarem pela janela do quarto de Narizinho.

(Continua...)

De volta ao Sítio - Capítulo 3

Faz-de-conta

Depois do jantar todos estavam a postos na sala, esperando por dona Benta. Tia Nastácia já havia sentado no sofá e fechava os olhos de sono.
- Não disse que ela já sabe da novidade? Já dorme tranqüila o sono dos despreocupados, enquanto a gente fica aqui morrendo de curiosidade.
- Quieta, Emília! Deixa a tia Nastácia em paz. Vovó já está chegando.
Dona Benta entrou com um envelope na mão, e sentou-se em sua cadeira de balanço.
- Hoje recebi esta carta de São Paulo.
- São Paulo? De quem, vovó? - perguntou Narizinho.
- Algum restaurante famoso querendo contratar tia Nastácia? - brincou Pedrinho, rindo-se da pobre Nastácia que abria os olhos, assustada: "Que foi?"
- Que restaurante nada. Para mim é do Dom Pedro!
- Que Dom Pedro, Emília?
- Aquele que deu o "brado retumbante" às margens do rio Ipiranga, ora! Isso não foi em São Paulo?
- Acorda, Emília. Isso foi a quase duzentos anos!
Dona Benta ria-se daquilo tudo.
- Deixem a imaginação para depois, criançada. A carta não é de nenhum restaurante, muito menos de Dom Pedro I. Escutem que eu vou ler para vocês: "Querida dona Benta, há muito queria lhe escrever..."
Quando dona Benta terminou, Emília estava pensativa, com os dedos no queixo, olhar para cima.
- Então, pessoal, o que vocês me dizem disso? - perguntou dona Benta.
- O que será que ele quer aqui no sítio, vovó?
- Quem sabe ele quer fazer um filme, Narizinho! Ou uma entrevista, ou um documentário para a televisão?
- Será, Pedrinho? Ele disse que sente saudade daqui sem nunca ter vindo ao sítio.
- Mas disse também que em seus sonhos passou a infância aqui conosco - lembrou o Visconde.
- Esta parte me interessa - gritou Emília. Se ele não é mais criança, mas esteve aqui quando criança, e foi em sonho, então tem a ver com o faz-de-conta, e de faz-de-conta eu entendo.
- E ele apelou para você, Emília. Não sabe como chegar até aqui, mas acredita que você tem uma solução para isso.
- É claro que tenho. É como eu sempre digo, adulto se aperta por tão pouca coisa!
- E qual é a solução, Emília?
- Responda a carta, dona Benta. Diga que venha sim, que queremos conhecê-lo e descobrir o que ele quer realmente. Diga que venha logo porque já estamos esperando.
- Ela fala como se fosse a dona do sítio!
- Sei muito bem que a dona é a sua avó, Narizinho! Mas sei também que dona Benta nunca faria essa desfeita a alguém que quer conhecer o sítio.
- E não farei mesmo, Emília. Mas, afinal, ele quer saber como vir. O que eu respondo, bonequinha?
- Muito fácil. Diga para ele arrumar as malas, ficar prontinho e fechar os olhos com bastante força. Quando abrir novamente estaremos na porteira para recebê-lo.

(Continua...)

O quintal - Capítulo 2

Alexandre e Alice amavam ouvir as histórias que o pai contava. Eram histórias inventadas por ele, misturando personagens que já existiam co...